FCP - Problemas em Barcelos [análise táctica]

O FC Porto iniciou a Liga NOS 2019/2020 com uma derrota em Barcelos, frente ao Gil Vicente. Antes de passar ao FCP de Sérgio Conceição, é necessário relevar o muito mérito por parte da organização defensiva montada por Vítor Oliveira e o talento de Luciany e Kraev. As equipas, sejam elas grandes ou pequenas, não jogam sozinhas e nunca os resultados surpreendentes se explicam somente por demérito dos mais fortes. Sendo assim, passemos à análise de alguns dos pontos fracos que o Porto de Sérgio Conceição evidenciou (novamente) num jogo da Liga NOS.

O FCP no momento de organização ofensiva

A transição ofensiva é um dos pontos fortes do FCPorto de Sérgio Conceição. Homens rápidos na frente, variações de centro de jogo fulminantes, aproveitando a velocidade e posicionamento dos laterais e colocação de muitos corpos na área são algumas imagens de marca da era de Conceição ao serviço do clube. O problema? A organização ofensiva, em especial contra equipas que actuam com um bloco baixo.

No vídeo acima, um exemplo do que aconteceu várias vezes ao longo da partida. Após uma troca de bolas curtas entre os Otávio e Bruno Costa, a mesma é devolvida a Pepe. As opções? Pouquíssimas. De imediato os médios viram as costas à bola e Pepe procura os laterais projectados e bem abertos. Manafá, com conhecidas dificuldades técnicas (e em esforço) perde o esférico sem surpresa.

Mesmo nas vezes em que Sérgio Oliveira ou Bruno Costa desciam para iniciar a saída de bola junto dos centrais, as opções eram escassas. Laterais bem projectados na frente, Soares estático junto aos centrais, com Zé Luís a ser o único a procurar o espaço entre-linhas. Com a organização defensiva do Gil a funcionar num 4-5-1, o jogo interior do Porto era ineficaz e quase inexistente. Nota disso foram as declarações do próprio Sérgio Conceição, no fim da partida, a assumir que com o avançar do jogo procurou (ainda) mais lateralizar e optar por cruzamentos para a área.

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Resultado da estratégia?

0.54 golos esperados em jogo corrido, durante toda a partida (via 11tegen11).

Nas duas épocas de Sérgio Conceição ao serviço do Porto, muita desta falta de imaginação na organização ofensiva foi mascarada por dois factores: (1) a capacidade de desequilíbrio de Brahimi, capaz de queimar linhas em progressão com bola e inventar chances de golo e (2) a forte capacidade na transição ofensiva, em virtude da velocidade, sobretudo, de Marega. O problema é que Brahimi já não está (e Nakajima ainda não teve um minuto de competição oficial) e Marega torna-se quase obsoleto diante de equipas com uma organização defensiva em bloco baixo. Soluções precisam-se.

As deficiências gritantes na transição defensiva

Uma partida de futebol tem diferentes momentos, sim, mas estes estão sempre interligados. O posicionamento de uma equipa em organização ofensiva dita a sua aptidão, ou falta dela, para a transição defensiva.

Com o FCP a actuar frequentemente com 7 ou 8 jogadores na frente da linha da bola, uma recuperação rápida da mesma levaria sempre a situações de perigo. Com ambos os laterais projectados, grande parte dos médios de costas para a bola e um adversário bastante organizado e concentrado, era uma questão de tempo até aparecerem espaços nas costas da defesa portista. O golo do Gil é consequência natural da organização ofensiva do Porto e consequente inaptidão para a transição defensiva.

Nos momentos que antecedem o golo: Manafá entrega no meio e começa a subir, juntamente com Alex Telles do lado oposto. Marega, que descera para pegar no jogo, não tem a capacidade técnica suficiente para ultrapassar o seu opositor (deficiências técnicas, mas também de visão de jogo e falta de rotina naquele espaço). A perda de bola gera uma situação de contra-ataque simples para o Gil Vicente.

Manafá está aberto e desposicionado, Pepe vem na dobra ao lateral e tenta roubar a bola a João Afonso, enquanto Marcano é arrastado por Sandro Lima, deixando via aberta para Lourency (que partira 2 metros antes de Alex Telles) ficar no um-para-um com Marchesín. Situações idênticas tinham sucedido na primeira parte, mas anuladas pela velocidade de Manafá e dobras defensivas de Bruno Costa. A transição defensiva do Porto deixou, desde cedo no jogo, muito a desejar.

Conclusões

Se no domínio da organização defensiva o Porto continua uma equipa fortíssima (dois blocos de 4 bastante agressivos a roubar o espaço entre-linhas ao adversário), o mesmo já não pode ser dito do momento de transição defensiva. Na época passada, a presença de Militão - e do próprio Felipe - anulava muito do perigo, dada a capacidade do central em controlar a profundidade. Militão já não está na equipa, no entanto, tal como Brahimi para encontrar espaços onde eles não existem. Nakajima tarda em estrear-se e Diogo Leite não parece ser opção válida, pelo que alguns problemas do FCPorto poderão manter-se caso as dinâmicas não se alterem.

Na transição ofensiva e aproveitamento das bolas-paradas, o Porto continuará a ser uma das melhores equipas da Europa, mas a previsibilidade da sua organização ofensiva, a debilidade na transição ataque-defesa e a incapacidade de jogar entrelinhas podem muito bem ditar um possível insucesso do modelo de Sérgio Conceição no decorrer desta época. A seu tempo veremos.

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O Pedro Barbosa (autor do texto) pode ser ouvido no podcast Matraquilhos e lido pelo Twitter.

Pedro Barbosa